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domingo, 20 de maio de 2018

Enrascada Ontológica































Uma noite dessas entrei na sala de aula no Miguel Couto e uma aluna minha estava chorando. Ela tem cerca de 19 anos e um bebê de 6 meses. Perguntei a ela o que estava acontecendo e ela disse que tinha perdido o emprego naquele dia. Ela trabalhava numa sorveteria há seis meses, ganhava míseros quinhentos reais por mês. Com o fim da temporada, a sorveteria faliu. Ela dizia a todo momento: "onde vou encontrar outro emprego ?"

Com os olhos cheios de água, eu não sabia o que dizer. Por um momento invejei pastores e padres, que nesta hora têm palavras de conforto como "Deus está no comando", "Tenha fé", "Faça uma prece para Jesus", ou coisas assim. Todas essas frases soariam falsas na minha boca, pois não sou religioso e tenho muitas dúvidas sobre tudo, embora ame Jesus como personagem histórico. Na hora, até mesmo maldisse Deus por não me dar sabedoria para dizer algo que a consolasse.

Este episódio aconteceu há dois meses e nunca mais saiu da minha cabeça. Todo professor que faz jus ao nome fica com o coração em frangalhos ao ver um aluno chorando e não poder ajudar. Mas não saber nem ao menos o que dizer é ainda mais duro.

Fiquei refletindo ainda mais sobre este mundo cão em que estamos vivendo. O que fizeram com nossa juventude ? O que fizeram com nosso povo ? Que gente é essa que nos governa nos planos municipal, estadual e federal ? Insensíveis, egoístas, individualistas, materialistas ao extremo, são personagens emblemáticos da nossa Era, em que o amor pelo próximo, sentimento humano mais sublime, anda totalmente desprezado. Disseminaram, de cima para baixo, com forte apoio da mídia, uma ideologia arrasadora de desprezo pelo sofrimento alheio (chamado de Mi Mi Mi) e de preocupação apenas com o próprio umbigo. Empobreceram nossa espécie a tal ponto que vislumbram um futuro sinistro para nossa sociedade. Criaram uma casta política e uma sociedade sem utopias ou ideologias a seguir, onde os atos dos que nos governam giram apenas em torno de ocupar o poder para manter seus próprios prazeres, o bem estar de suas famílias e o acúmulo de bens materiais.

Isso se alastrou de tal maneira pela vida social que empobreceu até a relação entre homens e mulheres. A vaidade está em alta, o sentimento em baixa. Mesmo os que são ainda capazes de amar, não querem expressar isso. Nunca tivemos, por conta disso, gente tão carente e sem esperança no futuro. O sexo se confunde com amor, e a melhor forma do primeiro é a tal pegada, o sexo forte e sem ternura. Afinal, doçura é coisa para os fracos. 

Quem ainda ousa amar é tido como idiota. Os honestos são tidos como otários. Os idealistas são apenas sonhadores bobos. O certo é cuidar de si e o resto que se exploda.

Não me conformarei com nada disso e vou reclamar, resmungar, vociferar contra este mundo, mesmo que ninguém ouça ou esteja a meu lado, e ainda que não veja caminhos claros para sairmos da enrascada ontológica em que nos metemos. 

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