O fogo consome a cana, agride os céus e inferniza o cotidiano dos trabalhadores. Ele foi ateado no distrito de Ponta Grossa dos Fidalgos, em plena luz do dia. A morte de dona Cristina nada tem de ineditismo, exceto sua revelação. Fora engolida pelas chamas das queimadas nos canaviais nos quais ela viveu quase toda a sua vida. As queimadas que a mataram já estão condenadas em instâncias internacionais há anos. Provocam aumento das concentrações de ozônio e de monóxido de carbono na atmosfera. Mas nada parece frear a ânsia de lucros dos donos dos canaviais.
Outros casos se dão com frequência na triste planície de Campos dos Goytacazes, mas raramente tornam-se conhecidos. Essas histórias, como tantas outras da região, parecem saídas dos livros de história do período colonial.
Na cidade, há entre 8 e 10 mil trabalhadores da monocultura de cana. Estima-se que pelo menos metade deles seja “clandestino” - não tem registro nem direitos. A região é líder em denúncias de trabalho escravo ou degradante. Somente em julho deste ano, foram libertados 280 trabalhadores em condições de escravidão na cidade e redondezas. Entre eles, 22 mulheres e quatro adolescentes, sendo um de 13 anos. A cidade, não por acaso, foi a última no Brasil a acatar a abolição da escravidão no século XIX.
Mas em Campos, a queimada é apenas um dos problemas. Os trabalhadores dos canaviais são roubados de diversas formas. Saem de casa sem saber quanto vão ganhar. O patrão é quem define o valor da cana, geralmente abaixo do preço justo. Eles também são roubados na pesagem, na conversão de valores, e até pelo programa de computador – os patrões chegaram a desenvolver softwares “desonestos” de cálculo. “Nem Marx previu tanta exploração”, afirma um sociólogo da UENF.
Bebe-se água insalubre, come-se comida estragada, mora-se em lugares sujos. Uma amostra da água bebida pelos trabalhadores chegou a apontar 100 vezes o índice máximo aceito de coliformes fecais.
João, um outro trabalhador do canavial, atuou por três anos na Usina Barcelos, pertencente ao Grupo Othon, que fechou as portas em 2008 alegando falência. O grupo Othon, porém. tem uma rede de 38 hotéis, duas pousadas e dois resorts. As ações do grupo subiram 5 % quando as olimpíadas de 2016 foram anunciadas para o Rio. Mas João não recebeu um centavo de indenização trabalhista.
A história da maior cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro é repleta de tradição, conservadorismo e frágil mobilização social. As colunas sociais são escritas por pessoas das mesmas famílias há anos.
Com 432 mil habitantes, e a maior extensão territorial do Estado, Campos é a sexta cidade mais rica do país. Qualquer um que visite suas ruas, porém, duvida do que vê. Ruas sujas, habitações precárias, comércio pouco desenvolvido e transporte sucateado marcam a paisagem. O povo campista parece não ser beneficiado em um centavo dos R$ 1,4 bilhão anuais do orçamento do município. Se esse dinheiro pudesse ser distribuído à população, cada família receberia cerca de R$ 13 mil por ano. O valor bilionário se deve aos royalties do petróleo.
Basicamente, o poder nesse “paraíso” do Norte Fluminense se divide entre os que orbitam em torno de Garotinho e os que começaram a trajetória a seu lado, mas mudaram de rumo. Sua esposa e ex-governadora Rosinha é a prefeita da cidade, e com a política do preço das passagens de ônibus a R$ 1,00, tende a manter o domínio. Este casal evangélico, de uma maneira ou de outra, influencia a política de Campos há mais de 20 anos. Os ultraconservadores barões da cana estão ligados de forma simbiótica com essa elite política e empresarial. A luta política em Campos na verdade gira em torno da ambição de administrar tamanha fortuna em royaltes e de manter o status quo das elites, e não para melhorar a vida do povo campista. Este último está cada vez mais pobre e explorado.
Campos é, em grande parte, o retrato do interior do Estado, onde políticos conservadores e famílias tradicionais se apoderaram do poder, não para melhorar a vida da população, mas para continuar seu processo histórico de enriquecimento às custas do saque ao erário público e da super exploração do trabalho.
Qualquer semelhança com outra cidade que você conhece melhor, amigo, não é mera coincidência.
Outros casos se dão com frequência na triste planície de Campos dos Goytacazes, mas raramente tornam-se conhecidos. Essas histórias, como tantas outras da região, parecem saídas dos livros de história do período colonial.
Na cidade, há entre 8 e 10 mil trabalhadores da monocultura de cana. Estima-se que pelo menos metade deles seja “clandestino” - não tem registro nem direitos. A região é líder em denúncias de trabalho escravo ou degradante. Somente em julho deste ano, foram libertados 280 trabalhadores em condições de escravidão na cidade e redondezas. Entre eles, 22 mulheres e quatro adolescentes, sendo um de 13 anos. A cidade, não por acaso, foi a última no Brasil a acatar a abolição da escravidão no século XIX.
Mas em Campos, a queimada é apenas um dos problemas. Os trabalhadores dos canaviais são roubados de diversas formas. Saem de casa sem saber quanto vão ganhar. O patrão é quem define o valor da cana, geralmente abaixo do preço justo. Eles também são roubados na pesagem, na conversão de valores, e até pelo programa de computador – os patrões chegaram a desenvolver softwares “desonestos” de cálculo. “Nem Marx previu tanta exploração”, afirma um sociólogo da UENF.
Bebe-se água insalubre, come-se comida estragada, mora-se em lugares sujos. Uma amostra da água bebida pelos trabalhadores chegou a apontar 100 vezes o índice máximo aceito de coliformes fecais.
João, um outro trabalhador do canavial, atuou por três anos na Usina Barcelos, pertencente ao Grupo Othon, que fechou as portas em 2008 alegando falência. O grupo Othon, porém. tem uma rede de 38 hotéis, duas pousadas e dois resorts. As ações do grupo subiram 5 % quando as olimpíadas de 2016 foram anunciadas para o Rio. Mas João não recebeu um centavo de indenização trabalhista.
A história da maior cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro é repleta de tradição, conservadorismo e frágil mobilização social. As colunas sociais são escritas por pessoas das mesmas famílias há anos.
Com 432 mil habitantes, e a maior extensão territorial do Estado, Campos é a sexta cidade mais rica do país. Qualquer um que visite suas ruas, porém, duvida do que vê. Ruas sujas, habitações precárias, comércio pouco desenvolvido e transporte sucateado marcam a paisagem. O povo campista parece não ser beneficiado em um centavo dos R$ 1,4 bilhão anuais do orçamento do município. Se esse dinheiro pudesse ser distribuído à população, cada família receberia cerca de R$ 13 mil por ano. O valor bilionário se deve aos royalties do petróleo.
Basicamente, o poder nesse “paraíso” do Norte Fluminense se divide entre os que orbitam em torno de Garotinho e os que começaram a trajetória a seu lado, mas mudaram de rumo. Sua esposa e ex-governadora Rosinha é a prefeita da cidade, e com a política do preço das passagens de ônibus a R$ 1,00, tende a manter o domínio. Este casal evangélico, de uma maneira ou de outra, influencia a política de Campos há mais de 20 anos. Os ultraconservadores barões da cana estão ligados de forma simbiótica com essa elite política e empresarial. A luta política em Campos na verdade gira em torno da ambição de administrar tamanha fortuna em royaltes e de manter o status quo das elites, e não para melhorar a vida do povo campista. Este último está cada vez mais pobre e explorado.
Campos é, em grande parte, o retrato do interior do Estado, onde políticos conservadores e famílias tradicionais se apoderaram do poder, não para melhorar a vida da população, mas para continuar seu processo histórico de enriquecimento às custas do saque ao erário público e da super exploração do trabalho.
Qualquer semelhança com outra cidade que você conhece melhor, amigo, não é mera coincidência.



